6 de agosto de 2010 | Blog Oxente Menina

Surfando sofás pelo mundo

Eu e meu marido ficamos apreensivos. Dissemos “sim” para o casal de alemães, mas quando o dia chegou, ficamos morrendo de medo. E se eles não gostassem de nós? E se não tivéssemos assunto para falar com eles? E se eles não gostassem de tomar banho?

Apesar de toda a apreensão envolvida, a nossa primeira experiência – de várias – com o Couch Surfing foi 100% positiva. E viciou!

Eu e Rodrigo com os nossos hóspedes do Ceará, Alemanha, Rio de Janeiro e Suíça. Mistura divertida!
Hã? Surfe de quê?

O Couch Surfing, ou Surfe de Sofá em tradução livre, foi criado pelo americano Casey Fenton em 2004. Tudo começou quando o próprio Casey, em suas andanças ao redor dos EUA, enviou vários e-mails para jovens universitários pedindo um pedacinho de chão no qual ele pudesse esticar o seu saco de dormir, já que o que queria mesmo era a companhia de novos amigos, e, surpreendentemente, recebeu várias respostas positivas. Nascia então a comunidade que conta hoje com mais de 2 milhões de membros do mundo inteiro.

Posso dormir no seu sofá?

Resumidamente, a comunidade funciona assim: você filtra a imensa lista de membros pelo local de destino, seleciona alguns perfis de acordo com o seu próprio perfil e interesses, e envia uma mensagem solicitando o sofá {o filtro pode ser feito também pela disponibilidade de hospedagem, idade, sexo, etc}. Você e o seu possível host (anfitrião) irão trocar e-mails, e a pessoa irá optar por recebê-lo ou não. É simples assim? Sim e não. Nem todas as pessoas tem disponibilidade para hospedar. Algumas informam no perfil que não hospedam, mas se disponibilizam a levar os visitantes para passear pela cidade, ou para tomar um café. Outras podem hospedar, mas isso não indica que elas irão receber todos aqueles que solicitam hospedagem. A importância das mensagens trocadas começa logo na primeira, quando o host irá “sentir” o visitante, por isso uma solicitação personalizada e bem escrita pode definir o sucesso de toda a experiência.

Uma comunidade segmentada, porém eclética

Uma coisa que esses dois milhões de membros certamente tem em comum é óbvia: viajar. Fora essa característica, as pessoas que fazem parte do CS são tão diversificadas quanto suas culturas. Não à tôa, o medo daqueles que hospedam ou são hospedados pela primeira vez tende a ser maior pelas diferenças e interpretações culturais, mas, o lado bom é que a empolgação também. “Antes de conhecer o CouchSurfing, eu queria poder viajar e não tinha dinheiro. Essa frustração de ter um mundo tão grande cheio de possibilidades, pessoas e culturas a serem descobertos e eu, sem poder exatamente viajar, fez com que eu aceitasse facilmente a ideia de abrir a porta da minha casa, para hospedar “estranhos” de todos os lugares do mundo”, conta Dea Ramos, membro do CS desde 2005 que já hospedou pessoas no Brasil e em Orlando, durante sua estadia nos EUA. “Viajar tornou-se uma experiência muito mais interessante. Hoje em dia eu viajo e não tenho como maior meta conhecer um determinado lugar, eu viajo pensando que pessoas eu irei conhecer”, completa.

Foto 1: Dea surfando o sofá do seu anfitrião Alex, no Maine (USA). Foto 2: Os hóspedes de Dea surfando o sofá durante o carnaval no Recife.

Dentro do Couch Surfing é possível entrar em vários grupos, que vão desde cidades e países, a interesses específicos, como “Famílias que viajam com crianças” ou “Pet Lovers”. Os grupos também são uma ótima maneira de conhecer a comunidade do lugar em questão, já que é onde os participantes mais ativos estão sempre postando suas dicas e movimentando a comunidade, e até participar de encontros reais que os membros dos grupos constumam organizar.

Oba, economizar dinheiro!

Se seus olhos já estiverem brilhando só em pensar em viajar nas próximas férias e não gastar uma peseta sequer, esqueça. O CS não é para você! Mais do que uma economia no orçamento de viagem, o Couch Surfing é um intercâmbio de culturas e ideias.

A economia pode até parecer o grande atrativo do site, mas definitivamente não é o que mantém os participantes. Claro que seria hipocrisia dizer que isso não é uma vantagem, mas às vezes nem chegar a ser efetivamente uma economia. O italiano Gianluca e sua esposa Cláudia, moradores de Niterói e embaixadores do Couch Surfing, dão exemplo de que a economia quase nunca é regra: “Gostamos de comprar comida para fazer um típico jantar italo-brasileiro para os nossos anfitriões, ou levá-los para jantar fora, e sempre levamos presentes e lembrancinhas para eles. É o mínimo de consideração que podemos oferecer, além da boa educação, às pessoas que abrem as portas de suas casas para nós.”

Foto 1: Gianluca e Cláudia comemorando a passagem de ano em Niterói com seus hóspedes. Foto 2: O casal italo-brasileiro em companhia dos seus anfitriões chilenos, em Santiago.

A propósito, não espere que as pessoas se compadeçam da sua falta de grana e o hospedem só porque você está sem dinheiro. Os membros mais ativos do CS geralmente abominam esse tipo de pedido. Se você está totalmente sem dinheiro, junte um pouquinho antes de viajar. 

Minha casa, minhas regras

Quem abre as portas de casa para desconhecidos não são necessariamente pessoas altruístas, são entusiastas que se interessam por diferentes culturas e acham a proposta do CS brilhante. Mas enquanto uns estão de férias, os anfitriões estão levando suas vidas normalmente, e os visitantes precisam estar abertos para aceitar regras estipuladas na casa, e não esperar um serviço de hotel cinco estrelas e guia turístico. Se você tem alergia a gatos, por exemplo, descarte o perfil das pessoas que tem esse bichinho de estimação em casa, já que dificilmente elas deixarão seus animaizinhos de lado só porque você não gosta deles.

Alguns hosts podem oferecer um quarto separado, com banheiro, e uma cama confortável, já outros, munidos apenas de uma enorme boa vontade, só podem oferecer um espaço para um saco de dormir no chão ou uma rede em um quarto compartilhado. Esteja sempre aberto às possibilidades oferecidas pelos seus anfitriões, e, caso não esteja disposto a aceitá-las, melhor hospedar-se num albergue ou hotel.

Me adiciona como amigo!

A primeira vista, o CS pode até parecer uma rede social pela maneira com que os grupos e o perfil são dispostos, mas definitivamente, o Couch Surfing não é Orkut ou Facebook. Para adicionar alguém como amigo você precisa de fato ter tido uma experiêncial real com ele, principalmente por questões de segurança. De segurança? Como assim? Quando você adiciona um amigo e deixa uma referência para ele {que pode ser positiva, neutra ou negativa}, você está atestando para o resto da comunidade que aquele alguém que está recebendo suas recomendações é uma pessoa real e digna de confiança {ou não!}. É nesses relatos de experiências que outras pessoas irão se basear na hora de solicitar um lugar para dormir ou na hora de aceitar ou recusar uma solicitação.

Todos precisam necessariamete começar do zero, então para conseguir as primeiras recomendações, nada melhor do que conhecer as pessoas da sua cidade ou convidadar um visitante para passar um dia em sua companhia mostrando a cidade. Ah, e um perfil bem preenchido é como um cartão de visitas, por isso dedique um tempinho para escrever bem o seu.

Experiências positivas e negativas

Estamos lidando com seres humanos, e não com seres de alguma galáxia distante onde tudo é lindo e colorido. Experiências negativas são passíveis – sim! – de acontecer. Existem maneiras de evitá-las, ou pelo menos contorná-las. A melhor maneira de evitar que algo desagradável aconteça é na troca de e-mails: se você é anfitrião, seja claro com relação às suas regras e seus horários; se você é visitante, e não está disposto a cumprir as regras que seu anfitrião impõe, escolha outro lugar para ficar. Ese houver alguma situação desagradável durante a estadia, conversem. Sempre há uma solução!

Diferenças culturais não são necessariamente experiências negativas, mas podem ser interpretadas como tal a partir do momento em que as partes não estão abertas a compreende-las. Porém, lembre-se sempre que não existem barreiras culturais para bons modos, simpatia e educação. Coloque esses três itens na sua mala de viagem, e aproveite a sua experiência da melhor forma possível!

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