A saúde mental das mães na pandemia da COVID-19

Mais de um ano se passou desde que nos trancamos em casa pela primeira vez para tentar frear a disseminação do coronavírus no país. Durante esse período criamos atividades para distrair as crianças, deixamos o celular à disposição para que pudessem falar com os amiguinhos, liberamos (não sem sentir culpa) a TV e o computador. A preocupação com os filhos somada a todas as atividades profissionais e domésticas deixaram a saúde mental de muitas mães em frangalhos nessa pandemia.

Mães cansadas: de olho na saúde mental

“Cuidado, carinho e segurança afetiva se fazem cada vez mais necessários para que as famílias superem os desafios da pandemia. Mas quem geralmente é a fonte de tudo isso no seio familiar também pode estar precisando de ajuda”, afirma a psicóloga Leticia Junqueiro, especialista em orientação parental e atendimento psicológico materno. “Confinadas e sobrecarregadas, as mães acumulam e misturam tarefas maternas, domésticas e profissionais e veem sua saúde mental sendo colocada em risco”.

+ Mães (im)perfeitas
+ Criando filhos gentis: a importância da gentileza na educação

A sobrecarga pela rotina de tarefas maternas, domésticas e profissionais na pandemia vem colocando a saúde mental das mulheres em risco, de acordo com a psicóloga Leticia Junqueiro. 

Sobrecarregada, aliás, é a palavra que define boa parte das mulheres com filhos e que administram a casa, a vida no lar e a própria carreira. “Esse último ano foi bem difícil em relação à manutenção da casa. Muitas brigas e discussões por estarmos o tempo todo exaustos”, conta a empresária Isis Cavalcanti, mãe de Luíse, atualmente com um ano e meio.

Em março do ano passado, ainda no começo da pandemia, Isis precisou dispensar funcionários de sua loja de suplementos e fechar parcialmente as portas, atuando sozinha na organização dos pedidos e contando apenas com o auxílio de um motoboy freelancer para efetuar as entregas. Cuidar da casa, ir para a loja no turno da tarde e dar conta da pequena Luíse exigiu bastante jogo de cintura e levou Isis à exaustão, mesmo podendo contar com a mãe em alguns momentos.

Sob o olhar atento da pequena Luíse, Isis se desdobra para conciliar as brincadeiras e cuidados com a filha aos afazeres domésticos e à empresa.

Cansada da rotina extenuante, recentemente Isis resolveu investir em utilitários domésticos que pudessem simplificar a rotina de dona de casa: “Comprei uma lava-louças, um robô aspirador e um mop novo. Me fez ganhar tempo e agora consigo fazer mais coisas com menos esforço”, conta. O investimento na saúde mental, como podemos comprovar pelo relato de Isis, não se limita apenas à terapia.

Um estudo do Centro de Pesquisa Econômica e Social da Universidade do Sul da Califórnia, divulgado no final do ano passado, apontou que 32% das mães passaram a se sentir esgotadas psicologicamente desde a pandemia. Já entre os homens – pais ou não – a taxa se manteve em 19%.

+ Gravidez e parto em tempos de COVID-19
+ Transtornos emocionais: quem procurar para buscar ajuda?

A pressão em ter que dar conta de tudo

Segundo Leticia Junqueiro, o esgotamento mental pode estar relacionado à tentativa de dar conta de tudo. “Com essa nova realidade, as mulheres passaram a ser ainda mais cobradas em todas as suas demandas diárias. Aulas on-line dos filhos, trabalho em home office, aumento dos afazeres domésticos. Todas essas atividades tornaram-se acopladas, muitas vezes exigindo que sejam realizadas ao mesmo tempo e em um mesmo ambiente, aumentando ainda mais o estresse no dia a dia das mães”, explica.

Não se deixe levar pelas caras sorridentes da primeira foto. Aqui em casa, compartilhar meu espaço de home-office com as aulas on-line de Luca foi um dos maiores motivos de stress durante o isolamento.

Não é que essa sobrecarga seja uma novidade da pandemia. Antes do isolamento, as mulheres já viviam no limite com tantos afazeres e já sofriam por não dar conta de tudo. Esse sentimento se tornava ainda mais intenso pela falsa realidade de que o resto do mundo estava contornando essa rotina puxada com maestria – a vida perfeita mostrada nas redes sociais.

As redes sociais, contudo, não são os vilões nessa história. Analisando por uma perspectiva positiva, a presença das redes abriu uma porta para que as mães pudessem falar abertamente sobre o assunto, estimulando assim a conversa com outras mulheres que estão enfrentando os mesmos dilemas. Quase como uma rede de apoio virtual.  “A atual realidade potencializou e deixou às claras essa sobrecarga que já vivíamos e da qual não se falava abertamente”, complementa Leticia Junqueiro. Agora, além de falar abertamente, as mães podem trocar figurinhas e colocar em prática as dicas sugeridas.

O eterno sentimento de culpa

A pandemia também potencializou um sentimento bem conhecido das mães: a culpa. Apesar de todos os esforços em acompanhar a rotina dos filhos, dar conta das tarefas domésticas e manter a vida profissional em equilíbrio, basta uma atividade não dar certo ou uma birra da criança – afinal de contas o emocional dos pequenos também está abalado – para o castelo de cartas desmoronar.

Para a empresária potiguar Marise Brandão, mãe de Leonardo, de 8 anos, e Caroline, às vésperas de completar 3, a vida mudou de cabeça para baixo na pandemia. Dona de uma loja de roupas infantis, Marise conta que o primeiro impacto foi perder a rede de apoio: os pais e a diarista: “Foi um período em que fiquei louca tentando dar conta de casa, aulas do mais velho, filha pequena para cuidar…”, desabafa. “Tiramos Carol da escola no início da pandemia e tentamos nos adequar à rotina de Leo, que apresentou muita resistência e frustração com as aulas on-line. Ele é uma criança muito ativa, fazia inglês, Kumon, esportes, e de uma hora para outra foi privado de tudo isso”. 

Se vira nos 30! A empresária potiguar Marise Brandão precisou de muito jogo de cintura para conciliar a vida profissional, as tarefas domésticas e a maternidade com Caroline e Leonardo.

Ainda que nenhuma dessas privações causadas pela pandemia seja culpa da mãe, Marise não pode deixar de se sentir inundada por esse sentimento. “Por causa da culpa que eu sentia, tentava fazer vários jogos e brincadeiras com as crianças. Inventava atividades para estimular a pequena, já que optamos por tirá-la da escola, me virava nos 30 com as aulas híbridas do maior, mas às vezes parecia que todo o esforço não era suficiente. Eles choravam, eu chorava…”, relembra.

Hoje, com aulas híbridas do filho mais velho, a reabertura do comércio e a liberação de atividades ao ar livre, uma coisa que tem ajudado são os passeios de bicicleta para curtir o momento em família. “Colocamos a pequena na cadeirinha e passeamos um pouco para respirar ar puro”, conta. “E quando é dia de aula presencial de Leonardo, levo Carol comigo para o trabalho. E assim vamos nos virando até que tudo isso passe”, completa.

Passeios de bicicleta em família ajudaram Marise e a família a relaxar e aliviar os perrengues causados pela pandemia.

+ Principais vantagens de trabalhar em casa para quem tem filhos
+ 5 razões para não ter filhos

Aliviando o estresse mental das mães

Apesar dos perrengues, é possível desenvolver o autocuidado mental e tentar levar a vida com um pouco mais de leveza:

  • Não se anule! Pelo menos uma vez por semana, faça algo prazeroso da sua rotina de antes da pandemia. Tente fazer uma massagem relaxante, peça seu prato favorito pelo delivery, assista um filme ou leia um livro no meio da tarde sem culpa.
  • Passe mais tempo no seu cantinho favorito e reorganize seu lar. Redecore a casa, jogue fora o que não serve mais. “Redescubra o prazer de morar na sua casa, mas não deixe que as atividades tomem mais tempo do que devem. Tente envolver as crianças. Pode parecer mais trabalhoso no início, mas ficará mais fácil se elas colaborarem”, complementa Leticia Junqueiro.
  • Não se preocupe em encher as crianças de atividades. A psicóloga afirma que, neste momento complicado, o mais importante é estar junto, fortalecer vínculos e permitir mais tempo de ócio criativo.
  • Saia de casa para respirar ar puro, se possível. Ainda não é hora de encontrar os amigos e fazer festa, mas, seguindo as medidas de segurança e distanciamento, é possível ir à praia com a família, passear por algum parque nos finais de semana ou passear de bicicleta, como faz a família de Marise. Caso sair não seja uma possibilidade, cultive plantas na varanda e aproveita os primeiros raios de sol do dia para receber um pouco de vitamina D.
  • Busque terapia. Vários profissionais continuam atendendo on-line. Caso seu problema seja financeiro, existem várias clínicas e universidades que disponibilizam atendimentos a preços módicos.

Com a lentidão da vacinação no país, ainda é difícil enxergar um cenário de normalidade dentro de pouco tempo. Saiba, no entanto, que você não está só. E ainda que isso não seja suficiente para melhorar seu estado de espírito ou sua saúde mental, saber que outras mães estão dispostas a lhe ouvir e compartilhar experiências já aquece o coração. Sigamos juntas.

Comentários do Facebook

Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.