Suástica: como fazer seu filho pequeno entender o significado desse símbolo

Viralizou na internet, em junho deste ano, um vídeo de um jovem de 17 anos andando por um shopping em Caruaru (PE) ostentando uma faixa com a suástica nazista no braço. Abordado pelos seguranças do centro comercial, o rapaz disse que tinha liberdade para usar o que quisesse. Como mãe, a primeira coisa que pensei foi: “Que nunca seja meu filho a fazer uma coisa dessas”.

Por ironia do destino, bastaram alguns meses para que o assunto da suástica surgisse na minha própria casa. Foi através de um desenho feito por Luca.

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A inspiração do desenho da Suástica de Luca

Tomei um susto quando vi o desenho! Ele tinha feito um envelope para guardar as cartinhas de um jogo, na frente desse envelope fez a suástica. Perguntado onde tinha visto o símbolo, ele falou que tinha sido em um anime, mas não se lembrava em qual.

Acontece que, além dos animes propriamente ditos, ele adora assistir vídeos no YouTube de pessoas comentando sobre filmes, séries e desenhos. E foi esse o motivo do meu pânico, porque de vez em quando o pego assistindo vídeos em que os jovens falam muitos palavrões. Converso, digo que esses ele não deve assistir, mas é inevitável que ele eventualmente acabe caindo em sugestões que não nos agradam. E se foi em algum desses vídeos que ele viu alguém usando ou falando na suástica e achou que era uma coisa bacana?

Falando sobre o nazismo com criança

Brigar com Luca não ia adiantar nada, ele não conhece a história, não fez o desenho pensando na maldade que o símbolo remete. E para que ele pudesse compreender na imaturidade dos seus 7 anos, tentei falar da maneira mais simples que consegui pensar naquele momento:

Um cara chamado Hitler era muito cruel e racista. Que a maldade dele era tão grande, mas tão grande, que ele queria exterminar da face da terra todas as pessoas que ele considerava de raça inferior. Ele matava essas pessoas sem pena, a ponto de colocá-las em uma espécie de galpão todo fechado e ligar o gás para que elas morressem – inclusive as crianças. E não foram poucas pessoas, foram muitas, milhões.

E aí ele se assustou, se emocionou e compreendeu. O desenho foi pro lixo, e combinamos de que qualquer vídeo que mostrasse novamente esse símbolo, ele precisava nos avisar.

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A versão positiva do símbolo

Confesso que na hora em que vi o desenho da suástica nem passou pela minha cabeça o significado místico, que é ligado à várias culturas e religiões (astecas, celtas, budistas, hindus, entre outras). Essa conexão, aliás, faria todo sentido, uma vez que o budismo é uma das religiões predominantes no Japão. E que lugar do mundo é considerado o berço do anime? Sim, Japão.

O significando original da suástica é felicidade, prazer e boa sorte. Porém, depois que foi adotada como símbolo do Partido Nazista, a suástica ganhou uma conotação negativa associada ao racismo, ao fascismo, à guerra e ao Holocausto.

Ao relatar o ocorrido com Luca no Instagram, algumas pessoas comentaram sobre a simbologia. Talita Mattos, uma das autoras do saudoso blog Chocomenta, disse: “Ele parece ter desenhado o símbolo hindu, que é espelhado. Quando fui na Índia, vi esse símbolo em todo canto, inclusive minha amiga tatuou em hena para o casamento dela”.

Tokyo Revengers

Rah Brennichi, do Nerdivinas, mencionou o anime Tokyo Revengers como possível inspiração para Luca. Segundo ela, o anime gira em torno de uma gangue de adolescentes que usam o Manji como símbolo, porque o nome do líder da gangue é Manjiro. Manji é a suástica budista, cujo significado original é longa vida ou sorte. “Infelizmente, esse mesmo símbolo foi o adotado por Hitler. O anime não tem nenhuma afiliação ou menção ao nazismo”, completou.

E ainda falando em significados, minha amiga Carol Góes lembrou do livro e filme O Código da Vinci, em que o fictício personagem Robert Langdon, professor universitário de Simbologia, explica em uma aula como as interpretações dos símbolos mudam com o passar do tempo, incluindo a suástica.

4 dicas ao abordar a suástica (e o nazismo) com as crianças

Cedo ou tarde, todo pai, mãe ou responsável, vai se deparar com a saia-justa de uma pergunta ou atitude polêmica, controversa ou delicada. Não temos como nos preparar para cada uma delas, mas a forma como reagimos às dúvidas ou comportamentos dos nossos filhos vai contribuir na formação do caráter deles. Para não gerar traumas, uma conversa sincera é sempre a melhor alternativa.

1. Não faça alarde e nem brigue

As crianças ainda não conhecem a história, não sabem o que aconteceu. “A melhor coisa é conversar, explicar. Proibir sem um contexto não adianta”, essa frase foi um comentário deixado por Mi Iglesias, do Mãenicômio, e achei clara e objetiva. Brigar ou punir a criança sem que ela entenda porque está sendo censurada não faz sentido.

2. Pense na melhor forma de abordar o tema

Falar sobre o nazismo ou tentar ilustrar o que foi o Holocausto pode ser um papo muito pesado. Dependendo da idade do seu filho, tente contar da forma mais resumida e, na medida do possível, leve. Sei que de leve o tema não tem nada, mas existem maneiras de fazer os pequenos entenderem sem necessariamente falar das atrocidades. Se for uma criança maiorzinha, acima de 12 anos, tente introduzir o assunto com um filme. O Menino do Pijama Listrado e A Vida é Bela retratam o tema de forma comovente.

3. Fale sobre o racismo

O racismo já é um assunto conhecido pelas crianças e, infelizmente, vivenciado por muitas delas. A suástica foi adotada como símbolo da identidade ariana, a supremacia branca que considerava outras raças inferiores. Essa é uma ótima oportunidade para plantar nos pequenos a sementinha da igualdade e fazê-los compreender que ninguém é melhor ou pior por conta da cor da pele ou do lugar onde nasceu.

4. Repreenda piadas e brincadeiras

Certos temas são delicados demais para se fazer piada, e o nazismo definitivamente é um deles. Fantasias de carnaval ou de halloween com uniformes militares nazistas, por exemplo, não são nada engraçadas. A saudação a Hitler muito menos.

5. Converse sobre temas sensíveis sempre que possível

Ainda que não estejam relacionados ao nazismo, é importante tratar sobre assuntos delicados com as crianças sempre que surgir uma brecha. Falar sobre a morte nesse momento de pandemia, sobre gordofobia (quem nunca sofreu ou presenciou algo na escola?) ou mesmo sobre a fome, dando o exemplo do moço que pede comida no sinal, são formas de introduzir assuntos sensíveis de uma maneira natural. Além disso, esse tipo de conversa estimula a criança a ser mais empática.

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A responsabilidade por desenvolver o caráter das crianças é inteiramente nossa. Ensinar valores e chamar atenção para ideias com qualquer tipo de viés preconceituoso ou ofensivo é uma tarefa que precisamos colocar em prática desde a primeira idade, principalmente através de bons exemplos.

Em tempo, retomando o exemplo ilustrado no início do texto sobre o rapaz que foi flagrado com a suástica em Caruaru, apologia ao nazismo é crime. O parágrafo primeiro do artigo 20 diz que “Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo” é passível de punição com reclusão de dois a cinco anos e multa.

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